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8 de fevereiro de 2012

Nena Medeiros

Levou um Pé na Bunda?
Eu sempre quis escrever um texto de auto-ajuda. Acho-os a máxima do ditado:
“Se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”.
Shinyashikis e Marthas Medeiros têm-nos vendido bem.

Esta é a minha primeira experiência nessa seara. Divirtam-se.

Ah! Um alerta: há, no texto, algumas caricaturas das características masculinas mais preponderantes. Portando, aos rapazes que o lerem, estejam preparados para lidar com as generalizações. Se a carapuça servir, vista-a. Senão, saiba-se exceção e seja feliz!!



Ele disse que não dá mais. Acabou. Quando isto acontece, na maior parte dos casos, é porque ele tem um caso. Homens são preguiçosos demais para voltarem ao mercado se não já têm algumas ofertas no bolso. Há exceções, claro, mas são raras. O fato é que você acaba de fechar o pior negócio do mundo: você entrou com a bunda, ele com o pé.

Vamos fazer um retrocesso.

Você mereceu? Isto é, com tantas mulheres maravilhosas dando mole à volta dele, você foi eleita a gordinha mais simpática do condomínio? Pior: seu apelido no bairro é "lôra lôca" por causa das suas últimas crises histéricas? Pense bem... Os filhos atrapalham, cansam, tiram o tesão e a concentração. O trabalho é estressante, impossível relaxar e gozar sabendo que aquela promoção está por um fio. O mundo é mesmo cruel... enquanto você perde o viço dos cabelos fazendo contas, a secretária dele está na academia, dando uma empinada no bumbum. Enquanto você repete novamente aquela mesma ladainha sobre a toalha molhada esquecida sobre a cama, ela está escolhendo um lingerie novo e muito sexy que realça o tal bumbum empinado.

Se você se identificou aqui e está me lendo só por curiosidade, pois não levou um pé na bunda AINDA, está na hora de rever seu armamento nessa guerra. Se cuida! Homem nenhum aceita mulher desleixada. Anda meio sem tesão? Procure descobrir o que pode acendê-la, crie estímulos, converse com ele. Ele vai adorar saber que você ainda o ama e está disposta a voltar a ser aquela gata selvagem por quem ele se apaixonou há alguns anos. As crianças atrapalham? Tem uma piada que fala do uso sexual da vaselina: aplicada na maçaneta da porta do quarto do casal, impede os filhos de entrarem na hora agá. Na verdade, metaforicamente, esta piada tem uma dica importantíssima: crie e imponha limites. Hora de dormir, hora de acordar e tal. Parei aqui! Não vou me estender muito mais nesse assunto mesmo achando que quem melhor sabe criar os filhos é quem não os tem.

Se, ao contrário, você percebe que não mereceu: você é fogosa, sensual, bem-humorada, inteligente, tem um ótimo emprego, está sempre arrumada, cheirosa... Você é a mulher ideal, uma lady no convívio social e uma vadia na cama com ele... Ainda assim, ele trocou você por uma branquela requenguela que mal sabe pronunciar Big Brother Brasil e gasta uma fortuna em ligações para o programa? Fazer o quê? Talvez a outra consiga fazer um bolinho de arroz idêntico ao da mãe dele, sabe-se lá. Os homens são muito estranhos. Outra piada: Não perca tempo tentando entendê-los: a única mulher que conseguiu isso, morreu de rir antes de poder contar às outras.

Merecendo ou não, o fato é que aconteceu. Ele lhe deu um belo chute no traseiro e está doendo pra caramba. Não reprima. Chore! Chore muito, chore mesmo, que é bom, para desopilar o fígado. Mas não reinicie o dilúvio. Quarenta dias e quarenta noites de lágrimas escorrendo pelas faces já não é mais poesia: merece mesmo uma ida ao psiquiatra, pode ser depressão e homem nenhum merece tanto.

Como sair desse buraco? Primeiro: é preciso querer. É preciso querer! É preciso querer!! Ninguém vai poder ajudá-la, se você quer continuar sofrendo. Uma vez querendo sair dessa, uma vez decidindo por você, tudo fica mais fácil.

Uma colega minha no colégio tinha uma solução infalível para ajudar alguém a sair da fossa. Vou citá-la, sem eufemismos ou correções gramaticais, perdoem-me as pessoas mais melindrosas, mas ela dizia: “imagina ele cagando”. Claro que isso era uma solução de adolescente virgem, não serve para você. Vocês tinham intimidade. Vocês partilhavam o banheiro e não foram raras as vezes em que você penteou os cabelos enquanto ele estava lá, posando para Rodin. Mas, trazendo para a nossa realidade, a idéia é simples: foque nos defeitos. Procure lembrar-se das coisas que lhe são repulsivas. No hábito que ele tinha de discutir no trânsito, arrotar na frente dos amigos, roer as unhas... De quando ele esquecia seu aniversário, dos vexames que dava quando ficava de porre... Esqueça as qualidades, apague da memória os bons momentos, os orgasmos sísmicos...

Aproveite a crise. Se você tem mais de trinta, com certeza vai perder peso. É inevitável. Aproveite para dar um trato no visual, faça aquele peeling que vem se prometendo há anos, troque a cor dos cabelos, alise, corte ou encaracole, renove o guarda roupa, vá para a academia.

Arrume um hobby, ocupe-se, ocupe a cabeça, não deixe espaço para ele na sua vida. Isso lhe permitirá conhecer outras pessoas, partilhar interesses, angariar admiração, admiradores. Em suma, partir pra outra.

- Ah! - você dirá - não estou preparada para isso ainda!

E não vai estar nunca se continuar pensando assim. Você não precisa sair por aí transando com qualquer um. Apenas, esteja pronta para conhecer outras pessoas, fazer amizades que podem ou não evoluir. Não se violente. Deixe claros seus limites e envolva-se na medida do seu ritmo. É bobagem arrumar um amor pra esquecer outro, alguns lhe dirão. Mas, certamente, ficar em casa de pijamas sofrendo sozinha e se entupindo de chocolate é uma bobagem ainda maior. Mais uma piada, desculpem, hoje eu estou impossível: enquanto não aparece o homem certo, divirta-se com os errados. Ou seja, divirta-se.

Há um efeito colateral na sua transformação. Quando seu ex perceber a possibilidade de perdê-la, muito provavelmente tentará reconquistá-la. Homens são mesmo assim. Detestam perder e, se pudessem, não venderiam o carro velho, ao comprar um novo.

Se você pensa em vingança ou reconciliação, quanto antes partir pra outra, mais chances terá de voltar à mesma. É paradoxal. Os homens são.

Se você quer voltar e está disposta a aceitá-lo de volta, nessa hora, você estará com a faca e o queijo na mão. Não aja como se ele fosse a única goiabada do pedaço. Esnobe, diga-se muito ofendida, magoada. Você está mesmo. Faça-o valorizá-la, porque, no mais das vezes, nesse momento ele só quer garantir sua propriedade, mas ainda não está preparado para retomar um relacionamento monogâmico com você. Se você ceder logo, vai ser apenas mais uma no harém.

Não entre nessa de partir pra outra para fazer ciuminho. Seu objetivo não é esse. Você está tentando reconstruir sua vida e este processo pode atrair o seu ex. Porém, esteja preparada para seguir em frente se isso não ocorrer.

Deu tudo certo. Vocês voltaram e estão em lua de mel. Agora, lembre-se de que passado é passado. Não aproveite qualquer briguinha para mostrar-lhe o quanto ele a fez sofrer.

Deu tudo mais certo ainda. Você encontrou uma outra pessoa, maravilhosa, compreensiva... Ele é tudo, mas tudo mesmo, de bom. Lembre-se: também neste caso passado é passado. Não paute o comportamento dele pelo do ex, não se torne uma ciumenta compulsiva, cerceando movimento, vigiando os passos. Vai ser difícil: agora você é gata escaldada... sabe como é... Não importa. Controle-se. Procure ajuda profissional, se for necessário.

Seja qual for o final dessa história, use as lições aprendidas para tornar-se uma pessoa melhor, tornar melhor o seu relacionamento.

É lucro garantido para os dois.

30 de janeiro de 2012

Nena Medeiros

A Química do Desejo

Se o que atraiu você a este texto foi o título, saiba que, pela mesma razão comprei a revista Galileu deste mês. Tentava entender algumas coisas sobre as nuances de meus desejos e apetites, suas variações e, se possível, como esse fenômeno se dá nas outras pessoas, porque, às vezes, me acho meio diferente.

A reportagem é previsível, embora bem escrita. Nenhuma novidade além do que eu já havia estudado em História da Arte há muitos anos, quando fomos apresentados às estatuetas incas de mulheres com corpinho de pilão. O texto associa a atratividade de um homem ou mulher às características mais adequadas ao instinto atávico da procriação. Explica, por exemplo, porque os homens preferem as mulheres curvilíneas. As ancas generosas são atributos das boas parideiras e os seios fartos indicam uma maior predisposição à amamentação - nossos instintos desconhecem o silicone. Peitões também denunciam mais inequivocamente a idade avançada, pois sofrem com mais rigor a lei da gravidade. Não é que os rapazes sejam fúteis e só queiram namorar ninfetas turbinadas de cabeças vazias. É que instintivamente, vêem na mulher mais jovem um maior potencial em gerar e parir uma prole saudável. A cintura fina harmoniza o conjunto, realçando os atributos da fêmea reprodutora.

Já as mulheres buscam no homem os aspectos de virilidade, como a musculatura bem definida, as feições másculas "pero sin perder la ternura jamás" e o cheiro. Pasmem! De acordo com a revista, pode-se sentir o odor da testosterona num macho adulto apto à reprodução e isso é excitante para a maioria das mulheres. Ah! A revista alerta que os perfumes ditos ferormônios não funcionam. Portanto, trate de produzir sua própria testosterona. Não pergunte-me como.

Um pouco mais evoluídas, nós, mulheres, buscamos também sinais de poder e riqueza. Não, não somos interesseiras. Isto é, somos. Mas não é uma questão de mero egoísmo. Esta preocupação também vem dos tempos das cavernas, quando os homens eram responsáveis por trazer a caça que manteria a família viva. Apenas houve um processo cultural que transformou os víveres selvagens de então no vil metal de agora.

Em ambos os sexos, a curva do desejo está associada à idade e, no caso das mulheres, ao ciclo menstrual. Quanto mais férteis, mais predispostos ao prazer.

Tudo bem explicadinho, poderíamos supor que nossas paixões não são muito diferentes das que vivem nossos aparentados símios e é neste ponto que começo a discordar da matéria. Se assim o fosse, nós seríamos como radares, excitando-nos à presença de qualquer ser humano do sexo oposto com as características acima e... ops! Já que eu falei em sexo oposto, como explicar o homossexualismo? Como boa espectadora do Discovery Channel, sei que ele acontece até entre algumas espécies animais, às vezes apenas como forma do macho dominante manter sob seu controle outros machos do bando ou como forma de machos não dominantes satisfazerem suas necessidades sexuais, uma vez que as fêmeas normalmente não estão ao seu alcance. Entre os humanos a coisa é um pouco diferente. Homens e mulheres perfeitamente aptos à procriação optam por relacionar-se com pessoas do mesmo sexo, numa verdadeira contramão do que seria a via normal dos fluxos do desejo. Ainda assim, é inevitável afirmar que há atração sexual entre eles. Que fenômenos químicos os influenciam?

Eu até posso me considerar regida pela lua, ficando mais romântica e, consequentemente mais predisposta ao amor na lua cheia. Mas posso afirmar que o ciclo menstrual tem pouca ou nenhuma influência nos meus apetites. Para contrariar ainda mais a reportagem, quando mais jovem e, consequentemente, mais fértil, tinha muito menos vontade de fazer amor do que agora. Se bem que, fértil, nunca fui, pois estou todo o tempo fazendo uso de métodos contraceptivos, mecânicos ou químicos. Como o corpo entende isso? Melhor: como o corpo lida com as intervenções humanas sobre a sexualidade? Contraceptivos a base de hormônios, vasectomia, histerectomia ou simples laqueadura, reposição de hormônios... Todos esses métodos, mais ou menos invasivos derrubariam ou levariam às alturas a libido de qualquer um. E o Viagra e Cialis? Teoricamente, se a curva do desejo está em declínio, ao ponto do homem não mais ser capaz de uma ereção, por que ele procuraria fazer uso desses medicamentos?

A reportagem afirma que o mecanismo é mesmo complexo, não admitindo simplismos. Um fator complicador está nos aspetos culturais. No amor e na paixão, que a autora do texto explica ser mesmo diferente da atração sexual. Mas ela também afirma que a manutenção do desejo está diretamente relacionada ao prazer encontrado na relação. Ela entra nessa espinhenta seara dando como exemplo o famoso telefonema no dia seguinte tão esperado pela maioria das mulheres. Se não houve, pode ser que ele seja mesmo um canalha, mas também pode ser que não tenha "rolado química".

Faz sentido, mas há controvérsias.

Folheando uma revista feminina no salão, li a carta de uma mulher, separada há algum tempo, que dizia ser tarada pelo atual namorado. Muito apaixonada por ele, bastava um telefonema, um e-mail, para ela ficar excitadíssima, pronta para o ato. Porém, ela completava: no rala e rola, o ex-marido, apesar de nunca tê-la excitado do mesmo modo, ainda era, disparado, muito melhor amante, capaz de proporcionar-lhe os mais fantásticos e duradouros orgasmos. O sexólogo da revista explicou que os sentimentos dela pelo atual namorado eram os responsáveis pelo afloramento de tanta libido, mas a tendência seria uma redução progressiva com o passar do tempo. Afirmava ainda que a relação só se manteria se o sentimento fosse constantemente renovado e se o ato sexual propriamente dito viesse a tornar-se mais prazeroso para ela, recomendando-lhe mesmo que conversasse com ele sobre isso.

Num seriado americano que eu acompanhava há alguns anos, um dos personagens namorava uma mulher lindíssima, mas somente conseguia excitar-se ouvindo Barry White arrotar os primeiros acordes de You're The First, The Last, My Everything. Comédia, claro, mas sabemos que há pessoas que precisam de filmes, revistas, músicas ou fantasias para conseguirem avivar seu desejo. Tem até aquela piadinha da mulher que fica curada da enxaqueca repetindo muitas vezes: "não estou com dor de cabeça, não estou com dor de cabeça" e, depois, flagra o marido preparando-se para transar com ela: "não é a minha mulher, não é a minha mulher".

Um outro catalisador para o nosso tesão que não foi analisado pela revista, é o amor próprio, a auto-estima. Olhar-se no espelho e ver-se bem e atraente pode ser muito excitante. E, quando o espelho em questão é, na verdade, o olhar cheio de vontade de nossa cara metade, aí, não há banho frio que dê jeito. Pelo menos, funciona comigo. Se isso é instinto animal, reação química, safadeza, paixão ou amor, deixo para os especialistas responderem. Mas que é bom, é!

Pensando bem, eu não precisava ter comprado a revista e nem você ter me lido, para entender como funciona esse mecanismo que tem garantido a perpetuação da espécie humana e a enorme indústria do sexo pelo mundo afora. Não há nada de novo no front.
Mas, há muito mais entre o céu e a terra do que os escândalos da compra da Varig. Há o que é intrínseco a você e à pessoa que está com você, se houver uma, ou, caso contrário, às pessoas capazes de atrair você. São esses nossos fenômenos, individuais e acima de qualquer categorização, que valem cada suspiro, toda a taquicardia e pupila dilatada, cada gota de suor derramado, cada gemido ou sussurro... pra que entender?
Nena Medeiros

23 de janeiro de 2012

Nena Medeiros

O Valor da Mulher


"
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou para o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada
Ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher"

Caetano Veloso


Recebi hoje um e-mail com um texto bonitinho (
Um Defeito na Mulher), já meu conhecido, onde o autor narra o deslumbramento de um anjo ao ver a mulher, quando de sua criação por Deus. A cada detalhe da maravilhosa criatura, o anjo infantilmente pergunta sua razão ao Pai, e ele, com divina paciência, explica porque somos tão suaves e tão fortes, fala de nossa capacidade de gerar e cuidar de nossas crias, de curar a nós mesmas, de negociar, pensar, amar, sorrir, gritar, cantar, chorar. Após tecer montes de elogios, Deus encerra dizendo que temos um defeito: não saber o quanto valemos.
E o quanto vale uma mulher?
Em algumas culturas, o valor da mulher é numérico. Dependendo de sua idade, fertilidade, utilidade e aparência, seu custo pode variar desde algumas ovelhas até vários camelos. Fiz minha cotação no site
Camel Evil Sun
e descobri que meu valor é qualquer coisa entre 58 e 74 camelos (fui obrigada a fazer algumas variações dentre os parâmetros, uma vez que sou uma mulher multifacetada). Considerando que, de acordo com o próprio site, um camelo custa cerca de 2.000€, na média, eu ainda estou valendo algo como uma BMW 550i Security 4.8 32V. Ou seja, uma máquina!

Já na China, onde existe uma tradicional preferência por herdeiros do sexo masculino e um rigoroso controle populacional que limita a apenas um bebê por família, muitos pais optam pelo aborto de meninas. Talvez lá eu valesse menos que algum remorso.

Mesmo em algumas culturas ocidentais e países tidos como evoluídos, muitas vezes a mulher é tratada como mercadoria. De forma clandestina e criminosa, o tráfico de mulheres ainda é prática corriqueira e muitas vezes acobertada por instituições governamentais, policiais corruptos e grandes empresários.

Voltando porém, à nossa realidade, a respeito da qual penso que o textinho citado verse, creio que o valor em questão é a auto-estima. Muitas de nós temos mesmo a tendência de nos subestimar, vendendo-nos por pouco ou quase nada, entregando nossos corações por inteiro, dilacerando nossos corpos e almas por vagas promessas de amor. Quantas se sujeitam a companheiros egoístas, cruéis, indiferentes? Quantas aceitam caladas a condição de vítimas da violência, do assédio, dos maus tratos, às vezes impingidos até pelos filhos porque assim foram ensinadas a agir?

Porém, ao contrário do autor, penso que Deus não teria feito a mulher com tal defeito. Toda mulher nasce sabendo o valor que tem, toda mulher é garbosa e consciente de sua força e dignidade. O maior problema, é que por ser assim, ela pensa que o homem também é. E deixa claro a ele o quanto o admira. 
A maioria dos homens, porém, não sabe lidar com isso. Ao ver-se supervalorizado enche-se de orgulho e pensa-se melhor que ela, do que todas elas, passando a tratá-las como objeto descartável. Presos ao seu instinto atávico, querem agir como seus pares primatas, acumular fêmeas, haréns. E ela, confusa, sente-se mesmo inferior, pois se aquele a quem ela ama, valoriza apenas suas qualidades que a fazem idêntica a qualquer outro animal, por que ela acreditará ser mais do que isso? "Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher", diz o verso de Caetano. Eis que ela se torna mesmo "apenas" alguma coisa, perde seu valor para ele e para si.
Feliz, porém, o homem que sabe dar à mulher o valor que ela merece. Somente aquele capaz de vê-la como sua igual, construida à imagem e semelhança do mesmo Criador, pode entender nela sua real condição divina. E terá ao seu lado uma mulher por inteiro. Sem defeitos, como Deus a fez.


Nena Medeiros

16 de janeiro de 2012

Nena Medeiros

Eu Chorei Pela Última Vez Nesta Vida

Sexta-feira, dia de almoçar com os amigos e o programa da vez foi num restaurante próximo ao nosso trabalho, onde servem um sortido bufê de feijoada, acompanhado de boa música ao vivo. Um grupo de cordas e percussão interpretava sambinhas, o que tempera muito bem o prato mais tradicional da culinária nacional.
Num determinado momento, tocaram Chorei, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. Gosto da música e acompanhava a cantora, cantarolando com ela, quando parei no trecho:
“Chorei
Porque vinha trazendo minh'alma sentida
Eu chorei pela última vez nessa vida
Para nunca mais chorar”
Dei-me conta de que isso é algo que não desejo, nem para mim, nem para ninguém. Isto é, é claro que eu também não desejo tristezas. Mas, assim como é certo que haverá alegrias, elas também virão. Pessoas queridas nos deixarão, oportunidades serão perdidas, sofreremos ou testemunharemos injustiças, traições e mágoas. E, que máquina maravilhosa nós somos... Nessas horas, as dores da alma transbordam pelas janelas dos olhos, para não nos afogar.
A única forma de nos protegermos dessas coisas é deixando de viver. Se não nos envolvermos com as pessoas, não seremos deixados, traídos ou magoados por elas, se não alimentarmos sonhos e expectativas, não seremos surpreendidos pela sua não concretização, a inércia nos poupará das injustiças. Mas, convenhamos, que vida terrível deve ser a de quem não ama, não sonha, não age. Pode mesmo estar certo de que não terá motivos para chorar, mas também não os terá para sorrir.
Sei não... Posso até estar errada, mas o que quero mesmo é viver todas as emoções que a vida me trouxer, inclusive as tristezas. Pelo prazer de um reencontro, arriscar-me às despedidas, pela esperança das quimeras, enfrentar as agruras dos pesadelos, para poder rir às gargalhadas, deixar-me desaguar.
Os amigos, intrigados com meu repentino silêncio, querem saber o por quê. Penso se devo responder, filosofia não combina com feijoada e sambinhas. Nem mesmo filosofia de boteco. Brinco:
- “Quem canta seus males espanta”, mas como eu canto muito mal, decidi parar antes que acabasse espantando vocês também.
Eles riram, concordando, os sacanas! E a música do Gonzaguinha que tocou em seguida parecia ter vindo sob encomenda:
“É a vida, é bonita e é bonita!
No gogó!!”


Nena Medeiros

20 de dezembro de 2011

Nena Medeiros

A partir desta semana tenho a honra de compartilhar com vocês alguns textos muito bacanas de uma escritora e amiga muito talentosa, apresento um pouquinho dela para vocês, mas já já estaremos íntimas, pois os textos dela provocam isso.

Filha de poeta, nascida em 02/04/1967, no Rio de Janeiro, Nena Medeiros gosta de escrever desde que aprendeu o bê-a-bá. Analista de sistemas por profissão, há cerca de quatro anos ela publica seus escritos no Recanto das Letras. São mais de 800 textos, entre contos, crônicas, poesias, letras de músicas e esquetes literárias. Tem dois livros publicados: Contos Crônicos e Contos Crônicos 2 (All Print Editora) e mais quatro no forno. Também participou de diversas coletâneas e contribui com vários blogs.





O Que Atrapalha os Relacionamentos


O que atrapalha os relacionamentos são as expectativas.

Estamos sempre projetando no outro atitudes que teríamos, comportamentos que aprovamos, reações que julgamos mais adequadas. E, quando o outro foge ao script, nos decepcionamos, ficamos frustrados. Com o acúmulo, a seqüência dessas experiências desastrosas, não demora muito e estamos exaustos, a relação desgastada, um ínfimo deslize pode provocar uma avalanche.

Aceitar as pessoas como elas são é a melhor forma de evitar desapontamentos. Mas, para isso, é preciso saber como elas são. E também, deixar claro para elas o que você espera delas.

Conhecer, se deixar conhecer. Nós, as mulheres, temos o defeito de não expressarmos inequivocamente as regras do jogo. Queremos que nossos parceiros adivinhem o que nos vai por dentro. Não importa o quanto um homem ame uma mulher, ele nunca será capaz de entendê-la plenamente. Nós mesmas, às vezes nos surpreendemos, sonhando com coisas para as quais nunca antes havíamos sequer olhado. Converse com ele, isso vai ajudá-la até a se entender melhor. Diga o que gostaria de ganhar no natal, diga-lhe como gostaria que ele a tratasse quando você estiver na TPM ou com uma violenta enxaqueca, deixe claro para ele os comportamentos dele que a incomodam. Não é criar aquele clima que todo homem detesta de “precisamos conversar”... Ao contrário, deixe esses assuntos fluírem naturalmente, enquanto dividem uma taça de sorvete. E aproveite para também ouvi-lo, conhecê-lo. Este entendimento mútuo irá tornar a relação muito mais prazerosa para ambos. Muito provavelmente, ambos sairão de uma conversa dessas com vontade de mudar algumas de suas características para agradar o outro. E certamente, muito mais preparados para lidar com aquelas características do outro que ele assumidamente não será capaz de mudar.

E isso não vale apenas para os parceiros. Vale também para qualquer tipo de relação: com os pais, os filhos, irmãos, amigos, empregados...

Se sua sogra costuma interferir na sua relação com os seus filhos, se seu irmão tem o hábito de pegar seus discos emprestados sem aviso, se aquela amiga andou dando mole pro seu namorado... Converse, esclareça seus pontos de vista. Esteja preparado para ouvir também. E ajude. Se seu filho sempre esquece seu aniversário e isso a entristece, peça a alguém para lembrá-lo. Se a empregada não tira o limo do boxe ou as teias de aranha dos cantinhos, deixe os produtos necessários à mão, crie uma rotina: toda quinta-feira é dia de tirar o limo e as teias.

Com suas expectativas dentro do real, o risco de uma decepção será muito menor e suas relações, muito mais enriquecedoras e felizes.

Porém, algumas pessoas são realmente impossíveis de aceitar como elas são. Elas, definitivamente, estão muito aquém das suas expectativas e não se mostram interessadas em mudar. Neste caso, talvez seja hora de repensar mesmo a relação. E pôr um ponto final nela. Pois, se as expectativas exageradas podem destruir um bom relacionamento, um mau relacionamento pode arrasar com todas as suas expectativas de vida.

Nena Medeiros
Publicado no Recanto das Letras em 20/03/2009
Código do texto: T1496061